Na medicina, aprendemos a diagnosticar, tratar, prescrever e acompanhar doenças.
Mas existe uma parte do cuidado que não cabe apenas em uma receita: ajudar alguém a transformar aquilo que sabe que precisa fazer em algo que realmente consegue sustentar na própria vida.
Talvez por isso uma expressão tenha ganhado um significado tão especial para mim nos últimos anos: especialista em mudança.
No último Congresso Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida, recebi uma homenagem da MEVBrasil pela minha trajetória e permanência nesse caminho.
E, curiosamente, minha primeira reação quando ouvi meu nome foi pensar: “Será que não é outra Luciana?”
Não me reconheci imediatamente naquele lugar porque nunca enxerguei minha trajetória pela velocidade dos resultados. Não fui a pessoa que chegou mais rápido ou que teve a transformação mais extraordinária.
Minha trajetória foi construída de outra forma.
Com estudo, formação, congressos, atualização constante e, principalmente, com a decisão de incorporar cada vez mais a Medicina do Estilo de Vida à forma como exerço a cardiologia.
Quando entendi o motivo daquela homenagem, entendi também por que ela me tocou tanto.
Ela falava sobre permanência. E permanência talvez seja uma das palavras que melhor definem aquilo que aprendemos quando estudamos mudança de comportamento.
Porque mudar não é tomar uma decisão em um dia e se tornar outra pessoa no seguinte.
Mudar é um processo e compreender esse processo transformou não apenas a minha trajetória profissional, mas também a maneira como cuido dos meus pacientes.
Afinal, o que significa ser especialista em mudança?
Quando falamos em Medicina do Estilo de Vida, é fácil imaginar que estamos falando apenas de alimentação saudável, exercício físico ou sono.
Mas existe uma camada anterior a tudo isso.
Para que uma recomendação produza resultados, precisamos entender como transformá-la em comportamento.
Dizer a um paciente que ele precisa se exercitar é diferente de ajudá-lo a compreender como o movimento pode entrar em uma rotina em que ele trabalha dez horas por dia.
Orientar uma alimentação adequada é diferente de entender quais obstáculos fazem com que aquela pessoa não consiga mantê-la.
Falar sobre sono é diferente de investigar por que alguém passa anos dormindo mal e tratando o cansaço como parte normal da vida.
É por isso que estudar mudança de comportamento acrescentou tanto à minha formação médica.
Passei a olhar não apenas para o que precisa mudar, mas para o que torna aquela mudança possível ou difícil para aquela pessoa. E isso muda a consulta.
O paciente não chega ao consultório apenas com exames
Na cardiologia, lidamos diariamente com números.
Pressão arterial, colesterol, glicemia, peso, frequência cardíaca, resultados de exames. Todos eles são importantes. Mas nenhum desses números existe isoladamente.
Atrás de uma pressão arterial elevada existe uma pessoa que dorme, trabalha, se alimenta, se movimenta, se relaciona e atravessa diferentes níveis de estresse.
Atrás de um colesterol alterado existe uma história.
Atrás de alguém que não consegue aderir ao tratamento também existe uma história.
Por isso, conhecer as evidências científicas sobre prevenção cardiovascular é indispensável, mas compreender como levá-las para a vida daquele paciente também faz parte do cuidado.
Esse talvez seja um dos pontos em que a Medicina do Estilo de Vida mais transformou minha prática.
Nem sempre o problema é falta de informação
Muitos pacientes que chegam ao consultório já sabem que deveriam cuidar melhor da saúde.
Eles sabem que precisam se movimentar mais, sabem que dormir pouco não faz bem., sabem que o estresse constante cobra um preço, sabem que determinados hábitos precisam mudar.
Ainda assim, saber não significa conseguir.
É nesse ponto que reduzir o cuidado a “coma melhor, faça exercício e durma oito horas” pode ser insuficiente.
Mudanças de comportamento envolvem contexto, motivação, barreiras, prioridades, ambiente e disponibilidade para mudar.
Existem pessoas prontas para começar. Existem pessoas que ainda estão tentando entender por que deveriam começar. Existem aquelas que começaram várias vezes e não conseguiram sustentar.
Se eu trato todas da mesma maneira, entregando a mesma lista de recomendações, ignoro uma parte importante do processo.
Ser especialista em mudança me ensinou a enxergar essas diferenças.
Na cardiologia, isso significa cuidar antes do susto
Essa forma de pensar encontra um lugar muito importante dentro da prevenção cardiovascular.
Ainda existe a ideia de que cuidar do coração começa quando um exame se altera de maneira importante, quando aparecem sintomas ou quando acontece algum evento cardiovascular.
Mas a prevenção começa muito antes. Começa quando identificamos fatores de risco e entendemos como eles se relacionam com aquela pessoa. Começa quando percebemos que determinados hábitos estão sendo mantidos há anos. Começa quando conseguimos agir enquanto ainda existe espaço para construir saúde, e não apenas reagir à doença.
Isso não significa substituir medicamentos por estilo de vida.
Medicamentos são necessários e fundamentais em muitas situações.
Significa compreender que a saúde cardiovascular não depende de uma única intervenção.
O tratamento pode envolver medicação, acompanhamento médico, exames e controle dos fatores de risco, mas também alimentação, atividade física, sono, manejo do estresse, relações sociais e outros aspectos que fazem parte da vida cotidiana.
É justamente essa integração que procuro levar para a cardiologia que exerço.
Mudanças sustentáveis raramente são as mais espetaculares
Talvez essa seja a maior conexão entre a homenagem que recebi e aquilo que observo dentro do consultório.
Vivemos cercados por histórias de transformações rápidas. Resultados impressionantes. Antes e depois. Metas alcançadas em poucas semanas.
Mas saúde não é uma competição de velocidade. Às vezes, uma mudança aparentemente pequena representa um avanço enorme para aquele paciente.
Uma pessoa sedentária que começa a caminhar regularmente.
Alguém que finalmente consegue organizar o horário de dormir.
Uma paciente que passa a compreender seus fatores de risco e deixa de enxergar a prevenção apenas como uma bateria de exames anuais.
Outra que começa a perceber que cuidar da própria saúde precisa ocupar algum espaço dentro de uma rotina dedicada a cuidar de todo mundo.
Essas mudanças talvez não produzam histórias espetaculares de um dia para o outro.
Mas podem produzir algo muito mais importante: continuidade.
E, quando falamos em prevenção, continuidade importa.
O meu papel não é exigir uma vida perfeita
Quanto mais estudo Medicina do Estilo de Vida, menos acredito em recomendações desconectadas da realidade.
Meu objetivo não é entregar ao paciente uma lista de tudo o que ele está fazendo errado.
Também não é esperar que alguém saia de uma consulta disposto a transformar alimentação, sono, exercício, estresse e toda a rotina ao mesmo tempo.
Meu papel é utilizar o conhecimento médico para identificar riscos, estabelecer prioridades e construir, junto com o paciente, caminhos possíveis.
Às vezes, precisamos tratar. Em outras situações, precisamos prevenir. Na maioria das vezes, precisamos fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
E acredito que uma boa mudança é aquela que consegue continuar existindo depois que o entusiasmo inicial passa.
A homenagem ganhou outro significado para mim
Foi por isso que, depois de finalmente subir ao palco, aquela placa passou a representar algo muito maior.
Ela não reconhecia apenas congressos frequentados ou formações concluídas. Para mim, ela representava uma maneira de exercer medicina que venho construindo há anos.
Uma medicina que continua profundamente comprometida com diagnóstico, tratamento e evidência científica, mas que entende que prevenir também exige conhecer comportamento, contexto e vida real.
Receber o reconhecimento como especialista em mudança me fez perceber que eu também percorri esse processo.
Estudei, questionei, mudei minha prática, continuei estudando e permaneci.
Hoje, quando penso no significado dessa homenagem, penso menos no momento em que subi ao palco e mais na responsabilidade que ela representa daqui para frente.
Continuar me aprimorando para exercer uma cardiologia que não olhe apenas para a doença que já apareceu, mas também para aquilo que podemos construir antes dela.
Porque mudança não é um evento. É um processo.
E, na saúde cardiovascular, aprender a conduzir esse processo pode ser tão importante quanto saber por onde começar.